sexta-feira, 9 de maio de 2008

Esses manos...

-Furou o pneu?
-opa.
-acontece.
-pois é.
-quer ajuda?
-por quê?
-como, por quê?
-você nem me conhece.
-e daí?
-posso te assaltar ou te seqüestrar.
-por que você faria isso?
-eu não faria isso.
-então não tem nada demais eu te ajudar.
-mas como você tem certeza que eu não vou fazer nenhuma dessas coisas?
-por que você disse que não vai.
-e você acredita em mim?
-acho que sim.
-hoje em dia os golpes dos bandidos são assim, fingindo precisar de ajuda, e aí abusam da ingenuidade das pessoas.
-então ninguém mais pode se ajudar?
-não é assim também.
-então como é?
-é quase. Antes de ajudar você tem que analisar se a pessoa é suspeita ou não.
-e como se analisa?
-pela roupa, pelo jeito de andar e de falar, se tiver meio com jeito de mano.
-na minha terra isso chama preconceito.
-e de onde você é?
-lá do norte.
-lá onde tem índio?
-tem índio no sudeste também, sabia?
-sabia não. Uma vez fiquei sabendo que tem uma tribo indígena que fura a boca das meninas ainda pequenininhas, sem nem perguntar se elas querem, pra colocar aquelas varetas, atravessa o rosto todo. Não é uma crueldade?
-Parece com a história de algumas civilizações ocidentais que furam a orelha das meninas quando elas ainda são bebês sem elas terem direito de escolher. E pior, ainda penduram argolas e atravessam pedaços de metal nas orelhas delas depois. Bem cruel né?
- mas você falou de brincos! Toda mulher usa brinco, faz parte da nossa cultura!
-e você falou de algo que faz parte da cultura de alguns índios.
-que coisa estranha
-chama relativismo cultural.
-relativismo cultural quer dizer que todos são cruéis?
-quer dizer que todos são iguais, por serem diferentes, e que nenhuma cultura é superior a outra.
-e tem pessoas que se acham superiores umas as outras?!?
-tem sim
-nossa, que horrível. Aposto que é mano!