segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O relógio

-Boa tarde senhor, posso ajudar?
-Com certeza. Eu gostaria de devolver esse relógio de pulso.
-Você comprou ele quando?
-Faz dois meses.
-Bom senhor, eu tenho que verificar a garantia do produto. Qual é o defeito do relógio? Ele parou, caiu no chão, está atrasando?
-Não, nenhuma dessas coisas.
-Então o que?
-Nada, não tem defeito. Só quero devolver e pegar meu dinheiro de volta.
-Senhor, já se passaram dois meses, a troca só pode ser feita em até duas semanas.
-Não, não. Você não entende, eu não quero trocar por outro relógio. Só quero devolver, não quero nada da loja.
-Não pegamos devoluções, só trocas. E mesmo assim eu não tenho como ajudar o senhor.
-Como não tem? Eu comprei aqui, e quero devolver certo? Estou insatisfeito com o produto!
-Por que insatisfeito? O relógio nem defeito tem, e esse modelo é um dos melhores que nós temos.
-Olha só, eu precisava de mais tempo, estava com muitas coisas pra fazer ao mesmo tempo, tudo bagunçado, perdia hora. Então uma amiga me sugeriu, "compre um relógio, vai ajudar a organizar o seu tempo".
-Certo, e o senhor comprou ele nesta loja.
-Exatamente, e a partir daí só andava com o relógio, pra "organizar" o tempo. Mas ficou tudo pior ainda!
-Como?
-Olha... Antes eu não tinha noção dos horários e ficava todo atrapalhado, mas eu era feliz sabe. Agora é uma tortura, o tempo não passa mais do jeito que eu quero. O tal relógio fica controlando ele.
-Não entendi muito bem.
-Antes o tempo passava exatamente como e quando eu queria. Agora não. Se estou muito apressado e abarrotado de coisa, eu paro pra pensar um pouquinho, e lá se foram vinte minutos. Paro pra tirar um cochilo, e lá se foram três horas. Agora, quando eu quero que passe, se estou em uma reunião chata, ou não tem nada passando pra fazer, eu olho pra ele: "15:44". Passa uma eternidade. Olho de novo: "15:45". Isso quando não está no mesmo minuto!
-Senhor, eu receio que não possa te ajudar...
-Claro que pode, é só pegar essa maldição de volta e devolver meu dinheiro. Sabe, tem que ser tudo controladinho, como se a vida fosse cronometricamente programada pra me fazer infeliz, controlar meus movimentos, não deixar que um segundo passe sem que ele esteja situado em algum ponto da eternidade. Se o eterno é infinito, que sentido faz marcar um minuto, uma hora, um dia inteiro?
-Aguarde um momentinho, que eu vou chamar a gerente, esper....
-Sem momentinho, nem espera! Tudo é momentinho. O meu momento não é a mesma coisa que o seu momento. Ás vezes um momento dura horas, quando não deveria durar, e por mais torturante que eles sejam e cheios de tédio, a gente acaba nem lembrando no final das contas. E tem outros momentos que o relógio marca em horas mas eu sinto em segundos, e lembro pro resto da vida. O tempo não é o mesmo pras pessoas, ele simplesmente não pode ser marcado do mesmo jeito pra todo mundo!
-Senhor, mais uma vez, eu simplesmente não tenho como devolver o seu dinheiro. Se você quiser devolver o relógio, deixe ele aqui, e eu dou um fim nele.
-Então eu quero comprar meu tempo de volta.
-Não tenho como vender o tempo para o senhor.
-Na frente da loja está escrito "fazemos qualquer negócio".
-Com relógios.
-E pra que servem os relógios?
-Pra marcar o tempo.
-Então...
-Mas não é marcado de acordo como nós queremos.
-Então é marcado de acordo com quem?
-Olha, nessa altura, eu já nem sei mais nada. O senhor quer mais tempo? Vou fazer o seguinte, aqui estão cinco relógios. Eu vou acertar cada um deles com uma hora de diferença. E então o senhor segue o que achar melhor, e ganha o tempo que quiser, está bem?
-Até que enfim um vislumbre de sanidade nessa loja, só por deus! Tudo que eu queria era meu tempo de volta. Com certeza assim meu tempo vai ficar muito mais de acordo com o modo que ele passa pra mim.
-E o senhor vai ficar feliz, e vai embora, certo?
-Com certeza. Aliás, fiquei tão satisfeito, que vou levar até mais um produto. Vocês têm calendários?
-E aqui vamos nós outra vez...