quinta-feira, 13 de março de 2014

Dores

- Bom dia, doutor.
- Bom dia, fique à vontade.
- Obrigado.
- A que devo a visita?
- Estou com dores, doutor.
- Hnnn... dores. Esse é um assunto recorrente por aqui.
- Posso imaginar.
- Onde dói, exatamente?
- Tá doendo a vida.
- Puxa, logo a vida.. Aí já fica mais complicado.
- É grave, doutor?
- É uma epidemia. Só essa semana tive sete pacientes com dores na vida. Semana passada foram onze.
- Caramba! E o que causa isso?
- Até o momento só temos teorias. Algumas delas inferem que pode ser um vírus hidrolisado baseado no consumo, onde todas as metas e expectativas pessoais se voltam para buscas exageradamente materiais determinadas pelos conglomerados comerciais. Há também a possibilidade da infecção na solidariedade orgânica, de modo que a produção constante de relações pessoais vazias de sentido para de gerar vínculos imunológicos, levando a uma solidão crônica. E por último, talvez possa ser o Egoísmo autoimune, quando o indivíduo se importa só consigo mesmo, o que é um fator naturalmente destrutivo da humanidade do sujeito.
- Eu não entendi muito bem essa linguagem técnica, mas me deixou com medo.
- Não precisa se assustar. O medo só vai piorar as dores. Você tem algum outro sintoma? Incômodos no joelho? Refluxo gástrico? Cefaleia, tosse?
- No momento doutor, mesmo quando aparece alguma outra coisa, não é tão importante. O que dói mais é a vida mesmo.
- Entendo. É... Isso é um pouco triste meu caro, seu caso é grave.
- E eu tenho cura?
- Bom, existem duas opções de tratamento. A mais recomendada seria a fisioteravida. São vários meses de tratamento com esforço diário. As sessões médicas incluiriam a construção de um sentido existencial açambarcado pelo delineio de identidade. Você naturalmente precisaria olhar um pouco mais pra dentro de si, tentando identificar os defeitos que você mesmo alimenta te causando as dores. Isso teria que vir acompanhado de doses homeopáticas de solidarização com o próximo que aumentariam lentamente, com você sempre tentando se colocar um pouco mais no lugar do outro, compreendendo as pessoas, criando vínculos um pouco mais sinceros e, principalmente, menos egoístas. E é claro, beber muita água e ler mais livros, porque isso faz bem pra tudo.
- Nossa. Eu não imaginava que era tão sério assim. Esse tratamento é muito difícil, e eu não quero esperar tanto pra me curar. Queria alguma solução mais rápida. Qual seria a outra opção?
- Bom, tem a vidatectomia. Consiste numa incisão cirúrgica que remove a vida por completo.
- Eu poderia tentar essa. Ela tem garantia total de cura do problema?
- Não, apenas setenta por cento. Tem a possibilidade dos religiosos do mundo, sejam eles ocidentais, orientais, cristãos ou pagãos estarem certos, o que implica que você teria uma alma, e aí as suas dores na vida seriam transmitidas para a alma, já que você continuaria existindo após sua vida ser retirada na cirurgia. É o risco que você corre. Mas tem a possibilidade deles estarem errados, e tudo acabar mesmo, você é quem decide.
- Acho que eu vou acabar preferindo essa opção mesmo.
- Certeza que não quer tentar o tratamento da fisioteravida? Em alguns meses você pode se curar.
- Fico com a vidatectomia. Parece mais sensato.
- Vão ser sessenta mil reais.
- SESSENTA MIL REAIS? Que absurdo! Por que tão caro?
- Temos que fazer tudo parecer um acidente...