quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Pudim

- Mãe, eu quero ser palhaço
- Que?
- Quero ser palhaço, mãe.
- Você não está vendo que eu estou ocupada agora?
- Mas mãe, é importante.
- Olha, eu não tô pra brincadeira, eu preciso terminar essas planilhas pra enviar pro escritório urgentemente, deixa a brincadeira pra depois, tá bom?
- Mas é esse o ponto. Eu não quero um escritório pra enviar as planilhas mãe. Não quero planilhas também. Eu quero ser palhaço.
- Carlinhos você não tem um simulado amanhã? Não é melhor você estudar agora, e depois a gente conversa sobre isso?
- Mãe eu cansei de simulado. Eu cansei dessa simulação, o tempo todo. A gente simula que estuda, simula que trabalha, simula que ama, simula que faz simulado. Eu cansei mãe. Chega pra mim. Vou ser palhaço.
- Carlos Eduardo pare de ser ridículo e vá estudar. Chega de bobagem e de discursinho de estar cansado da vida. Você só tem dezesseis anos e ainda nem sabe o que é cansar de verdade.
- Tá bom mãe.
(sai da sala. passam três minutos. volta para a sala)
- Mãe, eu quero ser ridículo.
(a mãe põe a mão na testa, massageia o canto dos olhos com o polegar e o indicador da mão direita, suspira, pensa "Senhor, mais essa agora, dai-me paciência", suspira de novo, e diz)
- O que foi agora, filho?
- Mãe o que eu mais quero é ser ridículo.
- Eu não sei se você consegue perceber que eu não tô compreendendo aonde você quer chegar.
- Mãe, a humanidade é ridícula. A gente é patético.
- E?
- E isso é ótimo. É sincero. É ridículo você passar todo o seu tempo acordada preenchendo planilhas com dados que não representam nada. É ridículo a gente ficar vermelho de vergonha quando tropeça. É ridículo quando a gente ama e não consegue dizer que ama. É ridículo quando a gente fica feliz quando cantam em volta de um bolo e dão velinhas pra gente assoprar. É ridículo quando a gente fica nervoso quando alguém chama a gente de ridículo porque a gente não quer que nenhuma falha nossa seja exposta.
- E o que você tem com isso, querido?
- Eu quero compartilhar o meu fracasso mãe. Quero compartilhar o meu ridículo com o mundo. Quero ser sincero. Quero ser palhaço.
- Filho, isso é muito bonito. Mas entende o meu lado, você chega do nada pra mim, pra dizer que quer ser palhaço, quando eu estou no meio da finalização de um trabalho importante. Você compreende que eu não posso lidar com isso agora?
- Mãe, eu não tô pedindo pra você lidar com nada.
- Você está o que, então?
- Tô avisando.
- Então obrigada por avisar. Agora, por favor, deixa eu terminar aqui e vai pro seu quarto estudar pro simulado.
(Ele sai. No dia seguinte não vai pra escola. Compra um nariz e vai embora. Ridículo. Feliz. A mãe demora pra aceitar. Mas aceita. Anos depois, vem a peça ao teatro da cidade. Ele é ridículo no palco. As pessoas se identificam. Seus fracassos parecem mais leves depois da apresentação. A mãe morre de rir com o palhaço Pudim.)

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